/ 15.10.15 / 9 Comments / , , , , ,

Estratégias da casa

Uma das maiores preocupações que tenho como mãe é a de criar espaços de comunicação com os meus filhos, sinto que muitas vezes nos perdemos no ritmo do dia a dia e que algumas situações merecem mais do que uma solução rápida e apressada.
Tenho filhos com grande diferença de idades, a mais velha tem 15 anos e necessidades bem diferentes do mais novo com 2 anos e 10 meses, pelo meio duas meninas com 13 anos que mesmo entre si manifestam necessidades bem distintas. 
Ao longo da minha "carreira" de mãe fui testando algumas "fórmulas" que, não sendo mágicas, têm dado bons resultados.
Partilho algumas dessas estratégias que tenho vindo a utilizar sempre que sinto que é preciso mais do que "chutar a bola para a frente"...

 - Não tentar resolver as coisas a quente. Esperar que se acalmem, ou que nos acalmemos todos e só depois voltar ao assunto. Isto funciona com todos cá em casa, mesmo entre o casal. Há quem defenda que não devemos ir dormir zangados uns com os outros, eu defendo o contrário. De manhã, com a cabeça fresca e a luz do sol tudo parece mais leve e fácil de resolver. Aqui funciona.

- Eu tento não levar as coisas demasiado a sério, as raparigas (pelo menos as minhas) dizem coisas quando estão zangadas que não querem dizer, tento sempre relativizar mas se me magoam eu não me esqueço e, numa situação calma e a sós, digo-lhes o que me doeu e que as palavras são como as pedras, expressão que a minha avó usava e que nunca me esqueci.



 - Criar momentos especiais com cada um dos filhos: Não é novidade para ninguém, é indispensável.
Quando as meninas eram pequenas começámos a sentir esta necessidade, especialmente porque duas delas são gémeas e para nós era importante reforçar e compreender a individualidade de cada uma. Numas férias de Natal resolvemos passar um dia inteiro com cada uma das três manas, à vez, deixando as outras duas na escola.
Na altura, com dois anos e meio, uma das gémeas fazia muitas birras e chorava imenso; no seu dia de exclusividade, de filha única, ficámos a conhecer outra criança, surpreendentemente ela passou todo o dia sem fazer uma única birra, com uma compreensão enorme para todas as situações e um bem estar incrível. Para nós, como pais, foi uma lição muito importante e nunca mais deixámos de promover estes programas de "filho único".

- Na mesma linha do ponto anterior, há uma prática que temos que ajuda bastante à aproximação e à criação de espaços de diálogo e comunicação que é a criação de programas rotineiros e do dia a dia mas com uma variante agradável à mistura, por exemplo: À quarta feira, de 15 em 15 dias vamos à lavandaria, o programa é chato e eu detesto! Resolvemos então que esta tarefa seria partilhada entre mim e duas das minhas filhas e que enquanto a roupa lava e seca aproveitamos e vamos a uma pastelaria fazer um lanche especial. Esta situação permite promover a partilha de tarefas, criar um momento de cumplicidade e outra coisa para mim importante que é tornar especial uma coisa banal como um lanche numa pastelaria.


- Utilizar as linguagens criativas como laboratório de emoções: Muitas vezes vamos ver exposições de arte contemporânea ou espectáculos de dança ou teatro que por serem abstractos e intensos provocam uma reacção emocional forte e aproveitamos essa projecção para falar de alguns temas que nos afectam e são íntimos colocando-os fora de nós.
Um exemplo: Uma vez fomos ver um espectáculo de dança onde uma das bailarinas era constantemente deixada para trás pelo grupo, esse nem era o foco da narrativa do espectáculo mas foi algo a que uma das minhas filhas foi sensível e referiu, no fim disse que tinha detestado o espectáculo por causa da tristeza que sentiu ao ver que uma das meninas era sempre deixada para trás. Eu percebi que isso era para ela um assunto delicado e não só conversámos sobre isso (sempre na perspectiva da bailarina...) como me serviu para ficar mais atenta a este sentimento na minha filha.
Existem muitos filmes de animação e curtas que são incríveis e que servem perfeitamente este tipo de propósito, como exemplo temos "O Ex ET" (disponível no youtube aqui) que aborda o tema de ser diferente numa sociedade que tenta formatar toda a gente, mas há tantos outros, sobre a morte, sobre a separação dos pais, o bullying, e por aí fora.
Acredito que podemos ajudar os nossos filhos a perceber o que sentem levando-os a situações que lhes promovam vivências significativas e os façam pensar com a nossa ajuda e sem juízos de valor.

 - Outra ajuda preciosa são os livros. Há títulos incontornáveis e que cá em casa foram e são peças chave na educação e na compreensão de certas situações e problemas. Alguns exemplos: "A fada bruxa" de B. Minne, C. Cneut, Edições Kual | "Eu não fui" de Christian Voltz, Kalandraka | "A coisa que mais dói no mundo" OQO Editora | "Quero o meu chapéu" jon Klassen, Mini Orfeu | "Laura e o coração das coisas" de Lorenzo Silva e Jordi Sábat, Ed. Dom Quixote | entre muitos outros.



 - Parar, questionar, tentar perceber o que é que realmente se está a passar: Acontece-me muitas vezes irritar-me com os comportamentos dos meus filhos, aumentar o tom de voz, dizer coisas sem sentido, mandá-los calar e querer à força que aquela "crise" pare, JÁ! Esta situação, cá em casa, funciona como uma bola de neve... quanto mais me exalto mais exaltados eles ficam - e isto é transversal a qualquer idade ou filho - muitas vezes dou por mim a gritar frases do género: Não gritem!
É ridículo, e não leva a lado nenhum. Toda a gente sabe isso, o problema está em conseguir não entrar neste "esquema de comportamento" que surge quase automaticamente. Eu tenho conseguido parar e deixar de querer arranjar solução para aquela situação naquele momento. Aqui as coisas funcionam de forma diferente quando se trata das filhas crescidas ou do filho pequeno, é até diferente para cada uma delas porque cada uma reage de forma diferente às coisas. Dar espaço, olhar nos olhos e perguntar com calma porque é que está tão irritada e zangada, explicar que só depois de se acalmar é que poderemos procurar uma solução. Colocar sempre em ênfase a situação e não a pessoa, trocar o "és ridícula" por "esta situação é ridícula", faz toda a diferença.


- Parar e conversar com eles com seriedade e explicando o que para nós é lógico.
Com o filho pequeno preocupo-me em lhe explicar que algumas pessoas crescidas dizem coisas sem pensar e que nem sempre são verdadeiras como a senhora do supermercado que lhe diz: "Olha que a mãe já não gosta mais de ti se fizeres birras por causa do chupa", ou a avó a quem escapou um "és tão feio se não lavares as mãos"...  desconstruir isto tudo é fundamental.
Dizemos coisas incríveis às crianças, coisas sem nexo nenhum. Nesta minha última gravidez li o livro "Besame mucho " do Carlos González que aconselho, especialmente as partes em que ridiculariza algumas situações quando coloca adultos nos papéis das crianças, é muito divertido e sério, devíamos fazer este exercício mais vezes.
Estou a começar a ler um outro livro que aborda estas questões e do qual falarei em breve: "Educar com Mindfulness" Mikaela Ovén


- Pedir desculpa e praticar o respeito. Eu tenho quatro filhos e durante os meus dias são muitos os momentos em que não faço as coisas como acredito e gostaria, preocupo-me muito com estas questões, procuro ser justa e tratá-los com o máximo de respeito possível. Sempre que falho com eles tento explicar-me e pedir desculpa, gosto que façam o mesmo comigo.
O meu Pai sempre o fez e é das melhores memórias que tenho da infância, sempre admirei imenso a forma humilde com que admitia o erro.
Penso que não devemos exigir aos nossos filhos atitudes que não praticamos com eles, o respeito mais do que se ensinar, pratica-se.



- Utilizar o humor como a estratégia número 1, a mais importante.
Dizer parvoíces, fazer figuras parvas, exercitar o nonsense, imitar as manias de cada um, cantar alto e desafinado, dançar à índio enquanto a bimby trabalha na velocidade máxima, falar línguas inventadas, trocar a história toda do livro que se está ler mas manter uma postura séria, utilizar legumes para fazer de microfone, pintar bigodes com uma rolha queimada, rir até doer a barriga... vale tudo!
Dá saúde e faz crescer, faz bem aos músculos da cara, rejuvenesce, liberta o stress, purifica a alma e fortalece o Amor.



A vida em família é um dos maiores desafios da vida, acredito que precisa de muita dedicação para se manter saudável, não dá para facilitar, fingir que não é connosco e assobiar para o lado.
Exige rigor e seriedade, alegria e criatividade, exige pensamento e reflexão, tolerância, muito amor e também uma certa estupidez natural.

E por aí como é? se tiverem estratégias para a troca agradecemos!

Obrigada e até breve.

Fotografias Vitorino Coragem
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9 comentários:

  1. Olá,
    adorei o texto, também estou a ler o livro da Mia e falho tantas vezes e peço tantas vezes desculpa pelo grito que não deveria ter sido dado. Tenho aprendido a escutar mais, a ler nas entrelinhas e tem sido uma grande ajuda. Cumprimentos
    Helena

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  2. Adorei o texto.... Identifico me com tudo!

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  3. Eu tenho aprendido tanto com as minhas filhas, que felizmente exigem o melhor de mim. Já me senti perdida ( quando o descontrolo emocional andava desnorteado) e já pedi ajuda. Com a Magda Dias comecei a interessar-me pela parentalidade positiva que me vai ajudando na resolução de algumas situações. Digo- o nesse tempo verbal porque na verdade é muito difícil " contrariar" sucessões de formas de educar que já vêem de tão atrás que é difícil desligar mo nos delas instintivamente. Está-nos no sangue . Sim é que só agora, depois de ter tido a segunda filha é que me apercebi o que é isso do instinto maternal. Tempo. se tivermos tempo e disponibilidade a sério para cada um deles , estamos quase sempre salvos. ;-)

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  4. Adorei o seu texto! Já tenho filhos crescidos e , pensando hoje em algumas atitudes que tinha, recrimino-me um bocadinho (gritar, querer tudo arrumado, por ex.) Ser mãe/ pai não é fácil. Felizmente, os meus filhos são ótimos adultos! Penso que não falhámos muito. E agora tenho uma neta. Com ela tudo é mais " doce" . Ser avô é ser pai com açúcar, dizem os brasileiros. E é mesmo!

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    1. Obrigada Guida, eu penso tantas vezes em como vou gostar de ser avó, essa frase é linda, ser pai com açúcar! Obrigada, abraço

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  5. Excelente! Revejo-me em várias situações, principalmente com uma adolescente!! Obrigada pelas dicas.

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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