/ 20.10.15 / 3 Comments / , , , , ,

Selma Uamusse



Selma Uamusse, formada em Engenharia optou por ser cantora depois da sua primeira filha nascer, foi há 5 anos e desde então já voltou a ser mãe de uma outra menina, hoje com 3 anos, já viveu na Bélgica e tem vindo a afirmar-se cada vez mais no mundo da música. No seu percurso  passou por bandas rock como os Wraygunn onde cantou ao lado de Paulo Furtado, integrou projectos gospel, soul, afrobeat e jazz, foi protagonista no tributo a Nina Simone e integra a banda de Rodrigo Leão, muito em breve lança o seu primeiro disco a solo que foi apresentado no festival das Músicas do mundo em Sines e recebeu os mais rasgados elogios da crítica.
Selma recebeu-nos na sua casa em Lisboa e falou do seu percurso de vida, da sua infância em Maputo, do seu crescimento, do casamento e da separação, da guarda partilhada que a obriga a ficar 2 meses longe das filhas, da relação que tem com o ex companheiro, do seu trabalho e da sua paixão por cantar. Deixem-se encantar pelo seu brilho e imaginem-lhe a voz e o riso.



Nheko: Vieste para Portugal com 7 anos, que memórias guardas da tua infância em Maputo?
Selma: Lembro-me de muita coisa, lembro-me de ir buscar a comida no período de racionamento, vivemos em guerra até 94. Lembro-me das festas da família do lado da minha mãe, o meu avô teve 11 ou 12 filhos e tinha o hábito de reunir a família toda regularmente. Eram encontros muito peculiares com muita música e muita dança. Também me recordo de ir para o trabalho da minha mãe que era directora do museu da revolução, em frente ao museu havia um jardim muito bonito e eu ia lá ao fim do dia e apanhávamos borboletas para a minha colecção.


N: A arte está presente na tua vida desde sempre?
S: As artes plásticas e a dança, mais do que a música. Lembro-me de ir sempre a inaugurações de exposições e lançamentos de livros, a minha mãe trabalhou muito ligada às bibliotecas, ela tem formação em história e depois fez Estudos Africanos, sempre esteve ligada à arte e aos museus, os meus pais sempre estiveram ligados a esse meio. Eles têm até uma história muito bonita: a minha mãe fazia rádio, ela tem uma voz doce e envolvente, muito radiofónica e tinha um programa ligado à cultura. A minha mãe era amiga de um vizinho do meu pai e ele apaixonou-se pela voz dela, então esse amigo comum levou a minha mãe a assistir a uma peça onde o meu pai declamava poesia e ela apaixonou-se por ele mas sem saber do encantamento que ele tinha pela voz dela... e foi assim.



N: Como foi a vossa vinda para Portugal?
S: Viemos os três, o meu irmão ainda não existia. Só tenho um irmão e foi por acaso... não somos nada uma família típica moçambicana. Mas o meu irmão nasceu cá, aliás ele foi a razão pela qual os meus pais acabaram por ficar mais tempo. O meu pai ganhou uma bolsa para ir estudar na antiga RDA, a minha mãe não queria ficar sozinha e como eu estava em idade escolar optaram em vir para Portugal em vez da Alemanha, a minha mãe veio fazer o mestrado e o meu pai conseguiu transferir a bolsa que tinha para uma universidade no Porto, vieram para estudar, depois a minha mãe ficou grávida e optou por ter cá o bebé, em Moçambique as condições eram más.
Regressaram em 1996/7 e eu regressei com eles mas estava numa idade em que os amigos são muito importantes, eu tinha 14 anos, não me adaptei e eles acabaram por me deixar ficar a viver em Portugal.
Numa fase inicial fiquei em casa da família da minha melhor amiga mas depois aluguei um quarto. Contei sempre muito com o apoio dos amigos dos meus pais, era uma rede forte!


N: Os teus pais deixaram-te vir, aos 14 anos, viver sozinha para Portugal? Como é que viveram este afastamento?
S: Sim deixaram, eu era muito responsável e igualmente teimosa. A minha mãe sempre foi muito presente na minha vida, nesta altura falávamos todos os dias mas eu sei que lhe "pesava na consciência" quase como se me tivesse "abandonado", foi muito difícil para ela. Aliás nesta altura foi tudo difícil, os meus pais separaram-se e foi economicamente muito complicado manter-me cá, em Moçambique os salários eram uma miséria era tudo muito pobre e foi mesmo difícil mas eu era muito obstinada e rapidamente comecei a contribuir para a minha subsistência: concorri a bolsas, comecei a fazer trabalhos esporádicos e as coisas foram-se equilibrando. Eu sempre tive a noção que se fizesse asneira ou não conseguisse dar a volta teria de voltar e eu não queria.



N: E como era a tua vida?
S: A maior parte dos meus amigos invejavam muito a minha "liberdade" mas eu nunca fui de sair e de cometer excessos. Na altura em que tinha uns 17 anos e estudava no Liceu Filipa de Lencastre, tinha amigos com mais dinheiro e às vezes ia com eles para a Kapital, era a moda dos shots e eu era a miúda que ficava a segurar nas cabeças dos meus amigos enquanto eles vomitavam, sempre fui assim.




N: Como mãe és parecida com a tua?
S: Muito! A minha mãe esteve agora cá de ferias e foi engraçado não só ver as coisas que tenho em comum com ela como as que as minhas filhas têm em comum com a avó. Um dia eu acompanhei a minha mãe a uma inauguração de uma exposição e foi giro porque assim que chegámos, passado muito pouco tempo ela já estava super integrada, a conversar animada, super social e eu pensei: Isto sou eu!

N: E como foi o teu percurso como mãe?
S: A Alice foi assim super desejada, sempre soube que queria ser mãe e aos 28 anos tinha o relógio biológico a dar horas! Eu casei-me aos 23 anos com o Jan, o pai das minhas filhas. Ele é Belga e conheci-o na Noruega quando ambos estávamos a frequentar um curso de verão para engenheiros. Depois o Jan veio para cá e casámos, estivemos 7 anos juntos sem filhos. A Alice foi muito desejada, eu lembro-me que foi a 5 de Janeiro de 2010 que soube que estava grávida. Foi muito bom, muito desejado, e preparado, era a primeira neta de ambos os lados, a primeira sobrinha, fomos os primeiros a ter filhos de todos os amigos, a Alice foi a primeira em tudo.
O Nascimento a Alice coincidiu com a minha decisão de querer ser cantora e ficar em casa durante um ano com a bebé. Deixei o meu emprego como engenheira e mudei radicalmente de vida.
A Emma nasceu 20 meses depois e numa altura muito diferente da minha vida, numa fase muito conturbada. Fiquei grávida da Ema numa fase de ruptura e acabei por me separar. Foi muito duro.



N: Mudaste muito desde que foste mãe?
S: Impossível não mudar! A principal alteração foi que me tornei mais assertiva, mais honesta. Sempre fui muito acarinhada por todos, desde sempre, na escola, etc e eu sempre me preocupei em ser agradável com todos, conciliadora, não para agradar mas para tratar bem os outros. Com os filhos passei a dar prioridade a outras coisas, a ter outro foco. Passei a assumir a verdade sem ter medo de ferir susceptibilidades, tornei-me mais rija! Continuo a ser preocupada e agradável com os outros mas sou mais frontal e directa e isso veio com a maternidade.


N: Como viveste o fim do teu casamento?
S: Eu casei-me nova, num contexto cristão e a acreditar que era para o resto da vida, o facto das coisas não terem corrido como eu gostaria também me fez encarar tudo de forma diferente, no início houve muito complexo de culpa mas depois surge esta descoberta de que é possível ser feliz e que as meninas sejam felizes assim, fora do padrão tradicional. isto também me fez mudar muito embora continue a achar que é muito importante para os miúdos ter um pai e uma mãe presentes idealmente numa estrutura familiar tradicional, mas não havendo essa possibilidade há outras alternativas, outros caminhos onde podemos viver felizes com tranquilidade e alegria.



N: Tens uma boa relação com o pai das tuas filhas?
S: Somos amigos, nós tentámos muito que as coisas resultassem, fizemos tudo o que podíamos. E temos um óptimo problema, ambos queremos estar com as meninas o máximo de tempo. Temos a guarda partilhada, elas passam dois meses comigo em Portugal e depois dois meses com o pai na Bélgica. Ele é um pai incrível, excelente! Faz imensas coisas com elas. Quando elas estão lá eu viajo até à Bélgica várias vezes para estarmos juntos. É fantástica a capacidade das crianças em se adaptarem e estarem bem! Elas são felizes cá e lá também, isso fez-me aprender muito. Há um preconceito muito grande, sinto-me muitas vezes julgada por ter este sistema de partilha, por ser cantora... mas as minhas filhas sempre me mostraram que não há drama nenhum, que são felizes assim. Nós falámos com elas e explicámos, depois de já estarmos separados fizemos uma grande viagem juntos e conseguimos resolver tudo e relembrar que a amizade é o que nos une desde sempre.



N: Tiveste de reaprender a viver sozinha?
S: Completamente, mudei de casa, voltei para junto da minha estrutura, dos que sempre me apoiaram, aqui à volta tenho a minha família do coração. esta casa quando as minhas filhas não estão cá fica gigante, é um vazio enorme.

N: O que é que fazes quando não tens as meninas?
S: Trabalho. trabalho muito. Funciona ainda como um refúgio e também como compensação pelos períodos em que elas estão e eu tento trabalhar menos e ter mais tempo. Ainda me custa muito estar sem elas, nada ocupa o lugar que elas deixam vazio, nem os amigos, nem namorados, nada. O trabalho é ainda onde me consigo abstrair. Também trabalho muito para conseguir cobrir todas as despesas que tenho, a casa, a creche, etc




N: Como é que a instituição-creche reage a isto tudo?
S: A nível de pagamentos são inflexíveis, tenho de pagar mesmo quando não vão de forma a assegurar as vagas. Para mim é muito importante que estejam lá bem e procuro ter uma relação boa e próxima com a creche. Por enquanto esta modalidade é possível mas sei que quando a Alice fizer 6 anos e for para o primeiro ano vai ser tudo diferente, aí teremos de tomar novas decisões.




N: São essas as "dores de crescimento" que mais temes?
S: A entrada para a escola será um período que nos vai obrigar a fazer novas escolhas.
Elas falam três línguas: O flamengo, o francês e o português, o ideal seria uma escola internacional onde pudessem integrar estes períodos cá e lá mas, independentemente disso, vai chegar uma altura em que elas vão optar, vão escolher o sítio onde querem viver. Eu penso nisso e sei que tanto me custa a mim como ao pai, mas é assim a nossa vida.


N: Elas vão contigo quando sais para concertos?
S: Em pequeninas sim, andavam sempre comigo e habituei-me a ter babysitter comigo na estrada, agora sinto que é mais importante que tenham alguma estabilidade, que respeitemos as rotinas, o descanso. Agora recorro a apoios mas para ficarem em casa com elas de forma a assegurar que tudo se mantém seguro e tranquilo nas suas vidas. Às vezes ainda vão e adoram! Mas sinto que ficam cansadas e que precisam de atenção. Elas também gostam de ir comigo ver outros espectáculos, levo-as sempre aos ensaios de gospel que são às segundas feiras e também vão muitas vezes comigo para o estúdio onde cantam e tocam bateria.



N: Tu não tens televisão em casa, porquê?
S: Pois não tenho, até era para ter... eu não sou nada fundamentalista na educação das minhas filhas mas comecei a perceber que não tínhamos muito tempo e que a TV hipnotiza as crianças e também é muito fácil estares cansada, ligar a televisão e deixar estar. Não era nada disso que queria para nós. Nesta fase os miúdos são hiper criativos, elas gostam de brincar com muita coisa, com legos. Adoram desenhar, pintar e dançar, eu estou sempre a ouvir música e ouvimos coisas muito diferentes. Elas assim que ouvem música com um registo mais clássico correm logo a vestir os tutus e dançam, dançam. Adoro assistir à interacção delas, quando eram pequenas era difícil, eram dois bebés, agora é maravilhoso, elas são o suporte uma da outra em todas as situações e divertem-se muito juntas.
Só há uma coisa que me chateia nisto de ser mãe que é a quantidade de festas de aniversário! Todas as semanas há algum colega que faz anos e depois os pais parece que entram numa espécie de competição e cada festa é mais espectacular e completa que a anterior... aborrece-me imenso!
Ma adorava ter mais filhos, durante um tempo tive algum complexo de culpa por a minha relação não ter resultado mas agora não, espero que no futuro consiga ter uma casa cheia de filhos a correr de um lado para o outro!



N: Eras capaz de voltar a ter um emprego "das nove às cinco"?
S: Não, não era mesmo! A razão pela qual deixei de ser engenheira para investir em ser cantora foi porque me sentia medíocre, não me sentia realizada a não ser quando cantava. Eu não quero voltar a ter a vida que já tive, tenho até bastante receio de vir a precisar disso.


N: Como cantora está numa óptima fase, o concerto no Festival de Músicas do Mundo em Sines foi muito bom e tiveste críticas excelentes.
S: Foi bom sim, até porque foi muito no início desta minha carreira a solo. Eu tenho "emprestado" a voz a vários projectos e houve o Tributo a Nina Simone que eu protagonizava, mas assim a solo sem outro suporte foi a primeira vez que estive com o meu reportório e foi muito bom ter sido tão bem aceite.

N: Este foi um espectáculo onde tocaste as tuas músicas do teu novo disco, quando é que o pudemos ouvir?
S: Este disco tem como base uma instrumentação tradicional moçambicana, eu canto em inglês mas também em línguas tradicionais de moçambique, é um reportório que vai buscar as minhas influências de casa, de Moçambique mas misturado com tudo o resto que tenho: electrónica, soul, rock, é o voltar às raízes, não só ao que já tinha mas a muitas coisas que ando a descobrir e que me fazem todo o sentido. Tem sido muito especial.
O disco está quase pronto, foi gravado em Moçambique e trabalhei com dois produtores diferentes, ainda não foi possível concluir este processo, está para breve!

Agosto 2015, Fotografias Vitorino Coragem
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3 comentários:

  1. Não conhecia esta cantora, obrigada! Agora vou ver se oiço a Selma Uamusse... certamente vou gostar muito! Desejo muitas felicidades a este projecto e aos seus intervenientes, claro! Paula

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  2. Gostei muito!!
    E revejo-me na resposta "do ter medo do trabalho das 9 às 5"! É terrível!

    bjs

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  3. Conheci o trabalho da Selma há pouco tempo, quando a ouvi no último disco do Samuel Úria, fiquei fascinada, de lá para cá ganhou mais uma admiradora! :)Gostei muito de a conhecer um pouco melhor!

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O meu nome é Alexandra, vivo com o meu namorado de sempre e juntos temos quatro filhos. Nheko é um espaço de partilha sobre a vida em família - a nossa e outras - e de divulgação de pessoas que fazem coisas realmente inspiradoras. Sejam bem-vindos.

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